Boa TV ainda existe
24 fev
A não ser que você tenha acesso à televisão de outros planetas, você deve concordar comigo: o padrão de qualidade na televisão só cai. E, infelizmente, isso não é nenhuma novidade. Vivemos na era dos reality shows, dos programas de auditório, do jornalismo espalhafatoso. O fenômeno é global – tanto que é provável que metade dos países do mundo tem versão própria do Big Brother.
Mas eu ainda sou uma entusiasta da TV – a americana. Não me leve a mal: ainda há conteúdo respeitável sendo produzido no Brasil. Eu diria que é uma questão de identificação, e quando eu estava no início do meu curso de inglês, cismei com David Letterman. E era uma cisma mesmo: não sosseguei enquanto não conseguia entender tudo que ele falava. Fui fiel ao Dave por muitos anos, mas, com a popularização do YouTube, descobri Jonathan Ross, Jimmy Kimmel, Conan O’Brien, Jay Leno… apresentadores de talk shows é o que não falta. E se há quem não gosta de ir para a cama sem o Jô, eu não gosto de passar uma semana sequer sem ver o que rola no mundo das entrevistas.
Foi procurando vídeos do James McAvoy que me deparei com Craig Ferguson. Procurava entrevistas do James porque havia acabado de assistir O Último Rei da Escócia e fiquei boquiaberta com aquele sotaque diferente que ele tinha! Por volta de 20 entrevistas depois, eu entendia cada vírgula que saía da boca dele, e me apaixonei perdidamente pelo sotaque. Ver não só um, mas dois escoceses conversando foi a minha ideia de céu linguistico. Nunca mais parei de ver o programa do Craig, que uma fã fielmente disponibiliza toda semana no YouTube.
Mas nem todo mundo dá esse crédito todo ao Craig Ferguson. O programa dele não é ao vivo, não tem banda e tem um cenário nada sofisticado. O apresentador tem um sotaque engraçado e vai ao ar bem tarde, já depois do Letterman. O próprio Ferguson brinca com o fato de que seus convidados podem falar o que quiserem no ar, já que não tem quase ninguém assistindo.
Craig não é só engraçado: ele é inteligente. Combina o status de apresentador de TV, comediante stand up, autor de dois livros, ator de TV e cinema e roteirista (de O Barato de Grace, que também estrela). Nada mau para quem, até um tempo atrás, era só um alcoólatra e drogado. Hoje Craig tem um público cativo (ainda que pequeno) porque é um dos poucos que conseguem tirar sarro de quem merece (leia-se John McCain, não Britney Spears) de forma inteligente, seja com esquetes ou piadas. E é o único apresentador com uma caneca de cobra.

Ontem, 23 de fevereiro, Craig fez um programa ainda mais diferente: dispensou a plateia e convidou Stephen Fry como seu único entrevistado. Os dois conversaram o programa todo, sobre temas variados, como sexo, redes sociais, poesia, a América e meio-ambiente. Fry também é um homem interessantíssimo: ator, escritor, blogueiro, twiteiro, documentarista, formado em Cambridge, ele sabe falar sobre tudo. O que algumas pessoas acharam chato, eu achei ousado, brilhante. Mesmo na era do 3D, acredito que entretenimento pode ser duas pessoas inteligentes conversando, mas infelizmente isso não é suficiente pra muita gente.
O que Ferguson fez ontem não é necessariamente inovador. Marília Gabriela e Charlie Rose o fazem há anos, rotineiramente, na televisão. Mas a atenção dada ao episódio de ontem se justifica por dois motivos: 1) conquistou mais respeito para o talk show host mais injustiçado da América e 2) provou que a qualidade de um programa de entrevistas não é proporcional às risadas da plateia.
Parabéns, Craig Ferguson, por desafiar o conceito de boa TV. Deus sabe que se fazia necessário.
