Arquivos | fevereiro, 2010

Boa TV ainda existe

24 fev

A não ser que você tenha acesso à televisão de outros planetas, você deve concordar comigo: o padrão de qualidade na televisão só cai. E, infelizmente, isso não é nenhuma novidade. Vivemos na era dos reality shows, dos programas de auditório, do jornalismo espalhafatoso. O fenômeno é global – tanto que é provável que metade dos países do mundo tem versão própria do Big Brother.

Mas eu ainda sou uma entusiasta da TV – a americana. Não me leve a mal: ainda há conteúdo respeitável sendo produzido no Brasil. Eu diria que é uma questão de identificação, e quando eu estava no início do meu curso de inglês, cismei com David Letterman. E era uma cisma mesmo: não sosseguei enquanto não conseguia entender tudo que ele falava. Fui fiel ao Dave por muitos anos, mas, com a popularização do YouTube, descobri Jonathan Ross, Jimmy Kimmel, Conan O’Brien, Jay Leno… apresentadores de talk shows é o que não falta. E se há quem não gosta de ir para a cama sem o Jô, eu não gosto de passar uma semana sequer sem ver o que rola no mundo das entrevistas.

Foi procurando vídeos do James McAvoy que me deparei com Craig Ferguson. Procurava entrevistas do James porque havia acabado de assistir O Último Rei da Escócia e fiquei boquiaberta com aquele sotaque diferente que ele tinha! Por volta de 20 entrevistas depois, eu entendia cada vírgula que saía da boca dele, e me apaixonei perdidamente pelo sotaque. Ver não só um, mas dois escoceses conversando foi a minha ideia de céu linguistico. Nunca mais parei de ver o programa do Craig, que uma fã fielmente disponibiliza toda semana no YouTube.

Mas nem todo mundo dá esse crédito todo ao Craig Ferguson. O programa dele não é ao vivo, não tem banda e tem um cenário nada sofisticado. O apresentador tem um sotaque engraçado e vai ao ar bem tarde, já depois do Letterman. O próprio Ferguson brinca com o fato de que seus convidados podem falar o que quiserem no ar, já que não tem quase ninguém assistindo.

Craig não é só engraçado: ele é inteligente. Combina o status de apresentador de TV, comediante stand up, autor de dois livros, ator de TV e cinema e roteirista (de O Barato de Grace, que também estrela). Nada mau para quem, até um tempo atrás, era só um alcoólatra e drogado. Hoje Craig tem um público cativo (ainda que pequeno) porque é um dos poucos que conseguem tirar sarro de quem merece (leia-se John McCain, não Britney Spears) de forma inteligente, seja com esquetes ou piadas. E é o único apresentador com uma caneca de cobra.

Ontem, 23 de fevereiro, Craig fez um programa ainda mais diferente: dispensou a plateia e convidou Stephen Fry como seu único entrevistado. Os dois conversaram o programa todo, sobre temas variados, como sexo, redes sociais, poesia, a América e meio-ambiente. Fry também é um homem interessantíssimo: ator, escritor, blogueiro, twiteiro, documentarista, formado em Cambridge, ele sabe falar sobre tudo. O que algumas pessoas acharam chato, eu achei ousado, brilhante. Mesmo na era do 3D, acredito que entretenimento pode ser duas pessoas inteligentes conversando, mas infelizmente isso não é suficiente pra muita gente.

O que Ferguson fez ontem não é necessariamente inovador. Marília Gabriela e Charlie Rose o fazem há anos, rotineiramente, na televisão. Mas a atenção dada ao episódio de ontem se justifica por dois motivos: 1) conquistou mais respeito para o talk show host mais injustiçado da América e 2) provou que a qualidade de um programa de entrevistas não é proporcional às risadas da plateia.

Parabéns, Craig Ferguson, por desafiar o conceito de boa TV. Deus sabe que se fazia necessário.

O Homem do Momento

22 fev

Moon (no Brasil, Lunar) é o tipo de filme que agrada ou a gregos, ou a troianos. É uma ficção científica dramática, com um enredo que confunde, mas encanta. Já falei dele por aqui, quando citei a campanha iniciada por Duncan Jones, diretor, pedindo um Oscar para Sam Rockwell, astro do filme. O abaixo-assinado reuniu milhares de assinaturas, todas em vão: os indicados à premiação da Academia foram, mais uma vez, os mesmos da panelinha de sempre.

Ontem, porém, quem foi agraciado com uma estatueta foi o próprio Duncan. Outstanding Debut by a British Director (Melhor Estreia de Diretor Britânico) foi o prêmio que abriu a cerimônia do BAFTA, e Duncan o recebeu das mãos de Colin Firth, que mais tarde seria agraciado com o título de Melhor Ator. Emocionado, disse que finalmente sabia o que queria fazer da vida e agradeceu a todos que proporcionaram a realização de seu sonho.

Para quem sonha um dia também subir ao palco da Royal Opera House de Londres e descer com uma máscara de ouro daquelas, foi bonito, emocionante. Não foi, nem de longe, o prêmio mais badalado da noite, mas Jones twitou, horas mais tarde: “Estou morto de cansaço, mas me recuso a ir dormir”, tamanha a emoção!

O significado do prêmio do jovem cineasta passou despercebido, ora pela batalha dos ex-cônjuges (vencida por ela), ora por discursos de príncipes. O significado, porém, é este: filho de ninguém menos que David Bowie, graduado em Filosofia, ex-publicitário, angaria fundos modestos (algo em torno de US$5 milhões) para seu primeiro filme, conquista o melhor protagonista possível, dirige-o com maestria, criando sets econômicos e inovadores e ganha prêmios de grande prestígio. Eu vejo algo de muito especial nessa trajetória: é o sonho, a modéstia, o nascer para o cinema. Duncan e eu temos mais em comum que a admiração por Sam Rockwell.

A vitória do estreante Jones foi a mais importante da noite – mais, inclusive, que a de Kathryn Bigelow – porque mostra que, embora haja muitos Michael Bays, a nova geração de cineastas está disposta a criar obras de verdadeira profundidade e relevância. Graças a Deus.

Why so hot?

8 fev

Não sou fã de futebol. Uma vez me impuseram ser flamenguista e eu não conseguia fugir da algazarra em que se transformava minha casa quando o Flamengo jogava. Todo esse fanatismo me fez decidir, por volta dos 9, que odiava futebol.

E odiei futebol durante muito tempo. Não tinha o mínimo de paciência para a coisa. Quando meu namorado pediu que eu usasse o rótulo de botafoguense, não impus qualquer objeção, afinal nunca tinha sido flamenguista de verdade. Anos mais tarde, me pego lendo notícias do time, vibrando com gols e ensaiando argumentos de defesa quando citam a última goleada sofrida pelo Botafogo. Quem diria…

Um assunto muito mais importante, porém, é a sustentabilidade. Sem querer voltar ao tópico “vamos-pagar-o-preço-de-nosso-consumo-desenfreado” (e vamos!), é fato que atualmente todas as grandes empresas tem se voltado para o tema, buscando formas de diminuir seu impacto no planeta e, de quebra, vender mais para aqueles consumidores mais exigentes.

Essa do Arsenal meu namorado tem – e é bem quentinha!

Como o futebol tem estado mais em minha mente, me peguei pensando: por que as camisas de futebol são tão quentes? É claro que o material de que são feitas (as originais) é de ótima qualidade, o que justifica seu alto preço. Mas as fabricantes esquecem que o Brasil, país do futebol, é tropical. Ou seja, no verão, é praticamente impossível usar a camisa do time para comemorar uma vitória.

Usando como ponto de partida o fato de que roupas mais frescas economizam energia, já que evitam que se ligue ventilador e ar-condicionado, seria ideal que as empresas fabricantes começassem a pensar em tecidos iguais em qualidade, porém mais frescos (e, de preferência, mais baratos). O pensamento sustentável faz bem pro planeta, para o consumidor e para as empresas. Pena que algumas ainda não se deram conta disso.

Se alguém conhece algo sendo feito neste sentido, adoraria saber – por favor, deixe um comentário.

Poesia cotidiana

6 fev

Senhora de aproximadamente 60 anos se dirige a mulher com (bastante) excesso de peso:

___ Tu queres assentar-se?
___ Não, ‘brigada.

Cena em um ônibus que, no fim de uma tarde de verão, ia para o terminal de Itaipava. Prova de que a poesia das palavras cotidianas está presente até nos lugares menos prováveis.

Estupidamente

4 fev

Não sei se isso acontece na sua cidade, mas aqui em Petrópolis é comum motoqueiros andarem sem capacete e motoristas estacionarem eus carros sobre a calçada, e os infratores são raramente punidos.

Hoje, a possível combinação de ambas infrações matou um jovem. Ele se chocou contra o ônibus em que eu estava, ontem à tarde, indo para o centro. Para ser sincera, não sei ao certo se o rapaz usava ou não capacete (mas tudo indicava a falta dele), porém ele subia em alta velocidade uma curva fechada na Alberto de Oliveira quando o motorista do ônibus foi obrigado a desviar de um carro parcialmente estacionado no passeio (e parcialmente invadindo a pista de quem desce). O choque foi inevitável.

Da janela do ônibus, de onde costumo observar as belas casas antigas da cidade, vi o jovem estirado ao chão, com o corpo meio que em convulsão. O estrago já havia sido feito.

Acompanhada pelo trocador, que abandonou o veículo na rua interditada, enquanto os pedestres se aglomeravam e o motorista desesperadamente chamava a ambulância, embarquei em outro ônibus. Em alguns minutos, antes mesmo de sairmos da Mosela, passamos pelo carro dos bombeiros e a ambulância. Hoje chegou a notícia, através do boca-a-boca, de que apesar da cirurgia, o rapaz não havia resistido.

Eu não o conhecia, mas mesmo assim senti a perda de uma vida que se foi estupidamente. Se ele não estivesse correndo, se o dono do carro tivesse respeitado a proibição, ou mesmo se o ônibus tivesse atrasado mais 30 segundos, o resultado poderia ter sido diferente.

Levarei comigo o som da batida, a imagem daquele corpo quase inerte, que lutava por cada suspiro, e a eterna indignação com quem não leva o trânsito tão a sério. É triste, muito triste.

UPDATE: a notícia da morte do rapaz mostrou-se falsa – mas ele continua no hospital em estado grave. Não deixa de ser revoltante.

Na natureza selvagem

2 fev

Sabe aquela resolução de ano novo de tentar fazer coisas novas, diferentes? Seria uma que eu poderia ter riscado da minha lista ontem, caso não tivesse desanimado de fazer resoluções. Isso porque inscrevi meu namorado e eu em uma caminhada guiada que nos levaria até a cachoeira Véu da Noiva, no Parque Nacional Serra dos Órgãos, promovida por um condutor que já faz o percurso há 24 anos.

A Serra dos Órgãos, como você já deve ter ouvido falar, é uma área de conservação de mais de 20.000 hectares situada nos municípios fluminenses de Teresópolis, Petrópolis, Magé e Guapimirim, e um dos principais destinos de ecoturismo do Brasil, perfeito para esportes de montanha. Dela fazem parte o Dedo de Deus, centenas de espécies de aves e mamíferos, e a travessia Petrópolis-Teresópolis, uma caminhada de 3 dias e 30km, é considerada a mais bonita do país.

A aventura começou bem cedo – e não apenas por termos acordado às cinco e meia da manhã. Fomos informados, no ponto do ônibus que achamos que nos levaria até a entrada do parque, de que pegaríamos uma outra condução (que por sinal não nos deixou ao menos perto do parque). Com quatro passagens a mais (ida e volta pra duas pessoas), achamos que nosso dinheiro não seria o suficiente. O alívio veio quando fizemos integração no terminal de Corrêas e ficamos isentos daquela tarifa. Ufa!

No trajeto que leva ao parque, nos separamos do grupo e achamos que seríamos assaltados por um rapaz de aparência duvidosa em uma rua quase deserta. Corremos, e muito! Antes de chegarmos ao nosso destino, porém, nos foi avisado: a entrada, que até dia 10 de janeiro era R$3 (com comprovante de residência de Petrópolis, pagava-se meia), havia sofrido reajuste. Para quem já tinha ido com o dinheiro contado, a nova taxa, de R$10, teria sido um baque, se o desconto para petropolitanos não tivesse subido para 80% do valor. Pagamos R$2 cada um – segundo alívio.

O trajeto até a cachoeira não foi nada fácil, apesar de assim ter sido divulgado. Um terreno acidentado, com subidas íngremes, trechos estreitos, pedras molhadas e com lodo é pesado para quem nunca fez trilha, como eu e Thiago. Conhecer pessoas diferentes, o simples fato de fugir da rotina e, sem dúvida, a paisagem da cachoeira e  o contato com a natureza fizeram as dores musculares, que sinto até agora, valerem a pena.

Restou o questionamento: o tal reajuste, que veio do Ministério do Meio Ambiente e vale em todo o território nacional, prevê preços diferentes para brasileiros e estrangeiros. Até faz sentido o aumento no preço da entrada, que não mudava desde 1996, mas quem não teve o privilégio de nascer aqui (cof cof) paga o dobro, a não ser que comprove residência fixa em nosso país. Apesar de sabermos que quem mais visita o Brasil traz dólares, euros ou libras, não entendo o raciocínio por trás da taxa diferenciada. No setor Bonfim, por exemplo, o acesso ao parque não é dos melhores, e a manutenção dos sanitários deixa a desejar.

Há outras formas de incentivar o turismo e tirar dinheiro dos americanos, argentinos e portugueses, como investir em segurança pública e manutenção e divulgação de nossas belezas. Evitar o desvio de verbas do Ministério de Turismo também pode ser uma boa ideia. Pode ser que esse tipo de mentalidade só ajude a reforçar os estereótipos que fazem de nós lá fora e a atrapalhar a subida que o Brasil tem tido como destino turístico.

Enquanto você reflete sobre o tópico – que pode lhe afetar mais do que você imagina – dê uma olhada em algumas das fotos que tirei por lá: